A Bahia e o descobrimento do amor próprio

Hoje eu quero te contar sobre a liberdade do amor próprio. A Bahia me amou porque eu me amei também. É textão, sim, mas é lindo.

Eu esqueci de programar o despertador para aquela madrugada de 22 de fevereiro. Meu voo do Rio para Porto Seguro era às 7h30 da manhã, eu deveria estar no aeroporto às 6h30 e como estava no Recreio dos Bandeirantes, deveria acordar por volta das 4h40. Meu inconsciente me acordou ás 4h37. Você pode imaginar como fiquei grata por ter despertado naturalmente na hora certa.

Eu comecei a chorar quando me acomodei na poltrona no avião e fiz um acordo pessoal: vou escrever a carta de amor mais bonita para mim mesma quando chegar em Trancoso.

Eu escrevo bem, tenho assumido isso com menos modéstia ultimamente, e no último mês havia usado as melhores palavras que existiam no meu coração para tentar convencer alguém que não queria mais o meu amor.

Deixei cartas pela casa que já não era mais nosso lar. Apelei para as nossas melhores lembranças em belas mensagens de texto. Agradeci todos os momentos felizes daqueles 14 anos com detalhes. Exaltei as qualidades que continuo admirando naquela pessoa que eu amava tanto. Mas ele não queria mais o meu amor e não havia nada que nenhum de nós dois pudesse fazer.

Enquanto isso, eu estava ali me sentindo abandonada. E a dor do abandono era (e ainda é) a pior dor que eu poderia experimentar. Eu mesma estava me abandonando e não tinha me dado conta disso. Naquele avião eu percebi que todo o amor e cuidado que eu implorava estavam ali dentro de mim, mas eu queria dar tudo isso para quem não estava interessado.

A equação é bem lógica: Eu quero amor e atenção e eu tenho amor e atenção para dar. Parece óbvio que eu não estava sendo muito inteligente, né?

Eu chorei imaginando todas as palavras bonitas que eu tinha para me dizer. Eu estava indo em busca de mim mesma e eu estava disposta a me encontrar.

Eu lembro de mim sentada na balsa, atravessando o rio entre Porto Seguro e Arraial d’Ajuda. O olhar triste no horizonte, mas o peito cheio de esperança de que aquela dor estava prestes a acabar. Eu sinto um orgulho imenso de mim hoje e uma gratidão maior ainda pelas pessoas que me ajudaram a dar aqueles passos. Estava pesado demais me levantar sozinha.

Na primeira noite em Trancoso eu tomei um porre e contei minha história com um misto de rancor e bom humor. Rir de si mesmo às vezes faz bem. E eu ri bastante aquela noite.

Na manhã seguinte eu fui até a Praia de Nativos, bem no encontro do Rio Trancoso com o mar. Estendi minha canga, tomei um banho de mar, coloquei uma playlist da Marisa Monte e só observei meus sentimentos.

Deixei fluir tudo o que havia na minha alma. Medo, saudade, raiva, mágoa, amor. Nunca mais vou subestimar a dor de um coração partido. Os psiquiatras são unânimes em dizer o cérebro humano entende o fim de um relacionamento afetivo como o luto pela morte de alguém muito especial.

Perder meu pai e minha cachorra Malú foram dores emocionais que me marcaram muito. E eu falo sem medo de julgamentos que a minha terceira perda foi ainda mais dilacerante, pois meu pai e minha cadela não tiveram escolha diante da morte. É muito difícil aceitar que alguém que você ama escolheu seguir sem você.

Voltando à praia. O sol estava forte, mas o vento que vinha do oceano não me deixava sentir o calor dos raios queimando a minha pele. Fiquei mergulhada no meu universo interno durante mais de uma hora e escrevi a primeira carta de amor para mim mesma. Escrevi outras cartas depois, mas esse foi o dia em que olhei pra mim de uma forma diferente pela primeira vez. Eu lembrei do que minhas melhores amigas vinham tentando me dizer. Eu imaginei como eu poderia confortar uma amiga que eu amasse muito e que viesse me contar aquelas dores que eu estava carregando. Eu dei o melhor de mim e tive compaixão.

Para e pensa em quanta compaixão a gente demonstra para um amigo que está sofrendo. Agora observa o quanto somos duros quando olhamos no espelho. Sim, se amar é um exercício de compaixão. É se permitir ser humano e aceitar o próprio choro. Decidir se amar é individual. É você por você mesma.

Eu sempre fico me questionando se devo mesmo expor essas coisas assim na internet, mas no fundo eu sei que essa preocupação é o ego com medo dos julgamentos.

O fato é que eu recebo todas as semanas várias mensagens, especialmente no instagram, de mulheres que tem se identificado comigo. Elas me contam sobre o olho do furacão que estão enfrentando em suas vidas. Eu tenho vontade de pegar pela mão e mostrar o olho do furacão lá do espaço. Fazê-las se afastarem do turbilhão para ter clareza do que realmente está acontecendo ali. Mas eu não posso fazer isso. Assim como ninguém podia fazer isso por mim quando eu estava me afogando no meu tsunami emocional.

O meu conselho é: ame-se, seja grata (por mais difícil que pareça) e medite para ouvir seu coração, pois no momento de dor, o ego berra e não nos deixa enxergar o óbvio.

Ainda vou falar das minhas aventuras na Bahia em outro texto. Porque amiga, eu não sei o que a baiana tem, mas a Bahia tem muita história boa guardada na minha memória. Vou colocar os stories em destaque no instagram pra quem não me seguia na época.

Hoje eu quero deixar aqui a coisa mais especial que vivi na costa do descobrimento, onde eu atraquei meu navio cheio de amor.

Trancoso – BA, 23 de fevereiro de 2018.
Amiga, eu sei que eu não sou muito de escrever pra você, mas a gente tem conversado muito nesses dias e eu sinto que preciso dizer o quanto eu te amo. Eu até acho que deveria te amar mais, você merece mais. Eu juro que estou fazendo o que posso para estar com você neste período de dor e transição. Estou cuidando de nós do jeito que posso, e sempre que consigo eu tento trazer a gente para o presente.
Por te amar tanto, eu gostaria que você parasse de imaginar como teria sido a nossa vida, se as coisas tivessem acontecido de outra maneira. Nada pode mudar o passado. O que está feito… está feito.
Você mesma diz, quando se entra por um caminho, os outros deixam de existir. Não há como voltar e pegar a rua da direita. Ela já desapereceu.
Você pode melhorar o caminho que você está seguindo agora. Plante flores, dance na chuva se ela cair. Sente-se para ver o sol nascer ou se por. Sorria para quem cruzar com você.
Eu sei que ainda dói.
Eu sei que ainda dói…
Meu amor, só eu sei como isso tudo ainda dói!
Mas a gente tem tanta força. Segura firme mais um pouco. Eu prometo que logo as coisas vão melhorar. Segura na minha mão, amiga. Eu sou a única pessoa que vai com você até o final!
Te amo muito e quero te amar ainda mais.

 

14 Respostas para “A Bahia e o descobrimento do amor próprio”

  1. Taís Betânia Fusinato

    Quanta verdade e quanto amor em forma de palavras tão bem escritas. Gratidão por compartilhar!
    Parabéns pela verdade e coragem de enfrentar o próprio ego.
    Tenho aprendido muito com você!
    Beijo grande

  2. gostei muito do seu relato, sei que preciso fazer tbm isso por mim, me redescobrir, me amar; mas sei tbm que nao sera de um dia para o outro, mas sei que tenho que dar o primeiro passo, depois a caminhada vai ficando mais leve e vai chegar o dia que olharei para tras e essa dor ja nao sera mais avistada.Obrigada por partilhar conosco suas dores e suas conquistas, Deus te abencoe sempre.

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