Viagem em mim mesma ou, toda morte é um nascimento

Era alto verão no Rio de Janeiro quando eu morri. Eu estava feliz naquela segunda-feira de janeiro. Havia acabado de voltar do médico e tinha em meu ventre cerca de 14 óvulos prontos para serem fecundados.

Tudo o que precisava ser resolvido antes da mudança para Belém do Pará estava resolvido. Faltava apenas voltar das mini-férias no Rio e arrumar as malas.

Mas como a maioria das mortes, a minha chegou sem aviso prévio. Talvez eu tenha recebido sinais de que as coisas não iam bem, mas estava distraída demais para perceber.

Eu me vi sem vida e desviei o olhar. Nas semanas seguintes eu tentava desesperadamente acordar na manhã daquela segunda-feira abafada e fazer tudo de outro jeito. Eu queria não ter voltado para o casarão em Santa Tereza. Eu queria não ter descido as escadas de madeira. Eu queria não ter perguntado nada.

Eu queria fazer qualquer coisa diferente do que eu fiz, menos olhar para o meu cadáver e aceitar que eu morri.

Eu chorei todos os dias durante dois meses. Eu pulei carnaval no Rio de Janeiro chorando. Eu mergulhei no mar da Bahia e pedi para que as ondas me levassem. Eu desisti de seguir em frente algumas vezes e implorei que não me excluíssem daquela vida que eu também havia ajudado a construir. Eu sou bem assim mesmo, emocional demais.

Eu chorei até receber uma mensagem dizendo que eu havia morrido. E eu fiquei furiosa. Como aquela mulher que eu nunca vi na vida me diz uma coisa dessas? Se eu tivesse morrido eu seria a primeira pessoa a saber, não é?

Mas eu havia mesmo morrido. E foi aí que eu fiz a minha primeira viagem realmente sozinha.

Eu estava na pousada de uma amiga em Trancoso, na Bahia. Cheguei ali sozinha, mas não estava realmente sozinha. Então eu arrumei uma mochila, reservei um hostel em Caraíva e embarquei na primeira van da manhã de uma sexta-feira.

No trajeto de quase uma hora, eu vivi o luto pela morte de mim mesma. Doeu profundamente, porque eu amava ser aquela mulher. Ela era incrível. Mas eu precisava sepultar aquele ego para deixar nascer a minha essência mais bonita.

Em Caraíva eu mergulhei no mar e no rio. Eu deitei na areia. Eu senti os raios do sol se pondo. Eu saí sozinha para me divertir e conheci um monte de gente nova. Eu me permiti dançar. Eu me permiti olhar e ser olhada. Eu me permiti ser feliz pela primeira vez depois de tanto choro.

Eu aceitei tudo como um sinal do Universo. Eu me deixei ser conduzida naquele fim de semana como em uma dança e fui parar em Arraial d’Ajuda. Lá eu me permiti ainda mais. Eu deixei a minha nova mulher brincar como criança. Foi o final de semana mais lindo que eu poderia ter me dado e eu só quero dizer obrigada para a estranha que me avisou que eu estava morta.

Depois dessa primeira viagem sozinha, eu decidi com toda a minha alma que iria tirar um ano sabático. Não sei se é volta ao mundo mesmo… tá sendo, porque eu já cruzei o oceano e estou no terceiro continente.

Esse blog está nascendo seis meses depois da minha morte. Faz cinco meses que eu estou na estrada e o que eu aprendi nesse período sobre mim eu não consegui aprender nos últimos 30 anos.

Esse é o primeiro texto do blog e eu relutei muito em escrevê-lo. Na verdade eu escrevi cinco outras versões diferentes. Mas hoje eu meditei com a intenção de fazer o melhor. E eu resolvi que é isso o que eu quero fazer nesse espaço. Abrir a minha alma e, quem sabe, ajudar outras almas que estão penando por essa vida sem saber que também morreram.

Por último, eu quero dizer que esse espaço é a manifestação mais real da gratidão que eu sinto pelo homem que segurou a minha mão durante os últimos anos. E principalmente, é a gratidão mais profunda por ele ter soltado a minha mão e ter me deixado ser livre. Hoje eu aceito tudo isso como a maior prova de amor que eu poderia ter recebido.

O amor pode se transformar, mas nunca deixa de ser amor.

14 Respostas para “Viagem em mim mesma ou, toda morte é um nascimento”

  1. Fernando Lebis

    Sensacional Paulinha, que lindo texto e “desabafo”, já era uma mulher admirável e está se tornando mais e mais…, prazer enorme ter te conhecido e vivido um pouco nas viagens contigo. Isso aí mulher domina esse mundão! Beijo, se cuida ;*

  2. Simplesmente MARAVILHOSO ❤️
    Estou em lágrimas de emoção do quão bonitas são suas palavras, principalmente por saber exatamente o que sente. Parabéns! Não tenha medo, você foi fantástica e inspira divinamente a todos que a chance de te acompanhar … sucesso!

  3. Roberta Bah

    Lágrimas escorrem na minha face pela tamanha identificação com seus textos… As razões são diferentes das tuas, mas tu me fez pensar sobre esta morte de mim mesma que já aconteceu e que não queria enxergar…
    Nada acontece por acaso e tenho gratidão pelas emoções que você despertou em mim e que, certamente após a emoção, me farão tomar novas decisões e rumos…
    Namaste!!!

  4. Muito legal o post e ler essas histórias de reconstrução após relacionamentos. Pelo que deu pra entender vc não passou por nenhum relacionamento abusivo, que quando encontrei seu blog imaginei que fosse a razão pela qual o criou. Ainda bem.
    Mas a pergunta é…. como fazer esse ano sabático largando tudo? E a grana pra fazer isso?

    • O nome disso é prioridade. Eu queria viajar e eu fiz o melhor que eu podia com o que eu tinha. Trabalhei muito por cama e comida, dormi em aeroportos, ônibus e rodoviárias. Um sabático não é igual uma viagem de férias. Nao tem os melhores restaurantes, nem hotel 4 estrelas. Tem escolhas. Eu fiz as minhas e fui extremamente feliz!

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