Milão e Garda iluminados pelo azul da Irlanda

O verão estava implacável em Milão. O sol queimava os seus ombros como um maçarico enquanto ela tentava encontrar de novo os olhos azuis mais lindos do mundo.

O voo de Budapeste foi rápido e chegando no aeroporto de Milão ela pegou um ônibus que a deixou na estação central da cidade, onde o encontro com o irlandês estava marcado. Ele chegou na Itália uma noite antes e se dizia ansioso para vê-la novamente.

Sim, lá estavam eles, os óculos escuros os cobriam, mas ela podia ver o brilho cristalino e profundo daqueles olhos por baixo das lentes.

Aquela barba charmosa de três cores desembarcou com mala de rodinhas, roupa esportiva, mas alinhada, e chinelos nos pés.

Ela estava com os cabelos presos num coque vencido, vestia o bom e velho jeans de todos os dias e carregava seu mochilão nas costas.

Ele com aquela carinha de turista europeu, ela desleixada como uma viajante de hostel barato. Ainda assim, os dois continuavam tão lindos um para o outro como quando se conheceram em Dublin.

Depois de deixar as malas no hotel, almoçaram num restaurante perto da praça Duomo onde ela jamais entraria sozinha nos seus roteiros de super baixo custo. Todo mundo tá cansado de saber que as mesas dos pontos turísticos são as mais caras da cidade. Ele parecia não se importar.

Ali começou o desconforto dela.

Ela escolheu um ano sabático e todas as renúncias que uma aventura como essa exigem. Ele estava tirando uma semana de férias.

É claro que ela havia avisado que sua escolha de viagem não incluía hotéis confortáveis regados a garrafas de vinho da casa durante o jantar. Embora ele tenha dito com todo o carinho e sinceridade do mundo que ela não precisava se preocupar com dinheiro, ela não se sentiu à vontade.

Eles não se conheciam direito e ela temia que ele achasse que ela estava se aproveitando da situação para ter uns dias de luxo depois de tanto sofá grátis e desconhecido na Alemanha e na Hungria.

Ele nem imagina, mas com os euros de um jantar que ela insistiu em pagar, era possível bancar quatro dias com hospedagem e todas as refeições inclusas no budget mochilão que ela vinha praticando. Se duvidar sobrava até um troco pra cerveja.

Mas independente dessa diferença no estilo de viagem em que ambos se encontravam, eles tiveram momentos adoráveis. Se embriagaram juntos em Milão. Viajaram de carro até o Lago de Garda. Navegaram pelo azul turquesa e viram o sol se pôr nas montanhas.

Ela se divertiu enquanto dirigia e ouvia ele soltar um festival de “fucking alguma coisa” cada vez que ela errava o caminho.

Se beijaram muito mais no começo da viagem. Ela continuava tendo muita dificuldade em compreender o sotaque irlandês e sentiu que isso os distanciou ao longo dos dias.

Na hora da despedida, ela quis chorar, porque bem no fundo já sabia que aquele último beijo era de adeus, embora ambos tenham dito até logo.

Às vezes a gente quer amar, mas o amor só consegue crescer onde brota selvagem. Se for plantado ele nem germina.

Ainda assim, ela agradece todos os dias por ter sido abraçada com tanto carinho no calor italiano.

Ninguém jamais havia jogado tudo pelos ares apenas para estar com ela.

O irlandês de olhos azuis tirou férias e viajou para Itália apenas para vê-la de novo. Ela nunca vai esquecer de como se sentiu especial.

Ela seguiu para Veneza, ele foi para Londres e a troca de mensagens esfriou. Com muita honestidade, os dois decidiram parar de se falar e a vida seguiu leve para ela sem a ansiedade de tentar adivinhar o que se passava naquele outro universo.

A comunicação assertiva é a melhor arma que os seres humanos possuem. Que bom se pudéssemos usá-la com mais sabedoria em todos os momentos.

Clique para ler os posts sobre Milão e Lago de Garda no Instagram. Os textos são inspirados nos sentimentos vividos nesses dois lugares. Dica: nestas duas postagens, assim como na de Dublin, eu uso azul como metáfora. Agora você pode ler de novo e entender tudo de uma forma ainda mais bonita.

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