Memórias da menina que mora em mim

Por volta das 11h15 da manhã do dia 13 de junho de 1981, a Eleni deu à luz a menina Paula na cidade de Curitiba, capital do Paraná, no Brasil (breve agradecimento porque eu amo ser brasileira).

Paula veio ao mundo por parto normal, e essa deve ser uma de suas primeiras memórias inconscientes fora do ventre materno. Aquele bebê saudável era a segunda filha de Eleni e Sérgio. Ela soube que o pai mandou rosas para a mãe um dia antes do seu nascimento pelo dia dos namorados. Paula escolheu registrar essa memória da mãe em si mesma como um sinal de que foi com amor que ela foi concebida e esperada.

Em Curitiba, Paula cresceu em uma rua sem saída num bairro de subúrbio. Serviu de carga para o caminhãozinho do seu irmão mais velho, que puxava o brinquedo com o bebê Paula na carroceria pelo quintal. Mais tarde eles ganharam uma irmãzinha e foram ensinados a cuidar dela. Andavam pelas ruas do bairro com a caçula no meio e ela segurava na mão dos irmãos pelo dedo indicador de cada um.

Paula lembra das duas grandes amigas da infância, do menino bonito que morava na primeira casa da rua e nunca lhe dirigia um olhar ou uma palavra. Paula lembra das brincadeiras com as outras crianças vizinhas, das descobertas e das brigas com os meninos.

Paula tem flashs das brincadeiras com o pai no gramado de casa ou no tapete da sala. Ela lembra de um banho cheio de risos que ele lhe deu quando ela tinha uns quatro anos e rolou na grama cheia de lama depois de um temporal.  Paula lembra de alguns natais e páscoas quando ele fazia de tudo para que ela e os irmãos acreditassem em Papai Noel e no coelhinho. Ela lembra de quando ele foi buscá-la mais cedo no jardim de inância, quando ela teve dor de cabeça. Naquele dia a menina mostrou ao pai a primeira cartinha de amor que recebeu de um menino.

Paula lembra de uma vez quando o pai foi embora. Ela lembra do choro desesperado e de pedir para ele ficar. Ela lembra da dor.

Paula lembra da mãe cuidando da limpeza da casa e arrumando a mesa de fórmica amarela. Paula lembra de observar a mãe secando os cabelos no banheiro enquanto Miguel Falabela tagarelava durante o Video Show.

Paula lembra do gatinho vermelho de borracha e do sofá de courino verde musgo.  Ela lembra do cheiro de limpeza na casa e do brilho no chão vermelho da cozinha. Ela também lembra do perfume de amaciante e sabão que os lençois exalavam do varal enquanto o rádio tocava uma canção de Roberto Carlos.

A menina Paula lembra do choro escondido da mãe e da mágoa que ela contava para uma amiga sobre a feridas que o pai provocou. Aquela tarde tinha cheiro de pão assado e café, tinha o Silvio Santos perguntando quem quer dinheiro. E naquela tarde Paula acreditou que também deveria sentir mágoa do seu pai. Paula deveria ser solidária com aquela mulher que batalhava tanto para cuidar dela.

As maiores lembraças que Paula tem da mãe durante a infância, começaram a surgir depois dessa dor vivida por ela. Paula não sabia, mas ela mesma escolheu nascer em Curitiba, no dia 13 de junho de 1981, filha de Eleni e Sérgio. Ela escolheu assistir aquela dor da separação dos pais. Ela escolheu repetir um padrão de comportamento em sua vida adulta para experimentar as mesmas dores da mãe. Porque Paula veio a esse mundo para curar.

Paula veio a esse mundo para curar o próprio coração e para curar o coração daquela mãe. Porque aquela mulher também escolheu ter a menina Paula como filha e, incosientemente, escolheu feri-la. Pois não há cura necessária se não houver uma ferida aberta antes.

Com todas essas memórias hoje eu me reconheço na mulher que aquela menina construiu. Eu quero dizer que não deixei tudo isso brotar para dizer que a culpa é daquela mãe do passado. Pelo contrário, a minha menina quer libertar a minha mãe imatura de trinta anos atrás dessa culpa. Eu quero dizer que acredito que ambas escolhemos nos ferir e nos amar tanto para que pudéssemos nos curar juntas. Pois quando uma mulher se cura, ela cura as outras a sua volta.

Hoje, mãe, nós somos duas mulheres. Cada uma curando sua dor, cada uma perdoando sua culpa. Cada uma se reinventando.

Aquela menina ainda mora em mim e ela lembra da primeira viagem que a mãe fez sozinha com ela e com os irmãos. Eles foram passar um fim de semana na praia e a mãe parecia orgulhosa de si mesma.

A família toda tem memórias daquele fim de semana. Das fotos feitas na casinha fresca de madeira, dos castelos de areia na praia e do balde de conchas colhidas na areia. A mãe estava feliz em poder viver aquela viagem com sua cria. A menina Paula gosta desta lembrança da mãe.

Hoje a Paula menina ouve da Eleni mulher que chegou a hora da sua estrela brilhar. Hoje a Paula mulher tenta dizer para a Eleni menina que é possível ser feliz e se amar. Que é possível aceitar e deixar ir um passado que não pode mais ser mudado.

Brilhemos juntas as nossas estrelas, mãe. Cada uma de nós é responsável pela sua própria luz.

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