Praga, Viena e um batidão cronometrado pelo leste europeu

Mais uma carona e o coração voando como uma pluma branca pelo leste europeu.

Depois de finalmente entender e aceitar minha história, segui viagem pelo leste da europa. Tem um punhado de países que deixei de lado dessa vez, mas nessa altura do campeonato o encontro na Itália já estava marcado. Eu encontrei uma passagem a menos de U$ 20 de Budapeste para Milão e tinha data para chegar na capital da Hungria. Então eu ajustei o orçamento, o calendário e decidi passar antes por duas cidades que sempre foram um sonho: Viena, na Áustria, e Praga, na República Checa.

Cheguei em Praga de BlaBlaCar e contei com a ajuda de outra caroneira para pegar o metrô. Eu viajei a Europa inteira sem comprar internet móvel e essa foi uma das poucas vezes que não consegui wifi público para me localizar. Mas tudo dá certo quando você tá seguindo o coração.

No hostel, conheci logo um alemão e um nigeriano que me chamaram para ver a lua cheia. Pena que a noite estava nublada. Mesmo assim, sentei no chão da Praça da Cidade Velha e me encantei com a arquitetura medieval. Mesmo lotada de turistas, Praga é, sem dúvida alguma, uma das cidades mais lindas que eu já visitei. E olha que só essa volta ao mundo já bateu mais de 50 cidades.

Na noite seguinte, comprei um vinho barato no mercado e me perdi no transporte público para chegar no Parque Letná. A ideia era ver o pôr do sol de um ponto alto, indicado pela recepcionista do hostel, mas eu me atrasei.

Mesmo sabendo que não veria o colorido do céu no fim da tarde, segui o plano. Encontrei um paço com alguns barezinhos e um DJ.  Olhei acima e vi uma turma mais ousada no rooftop de um dos bares. Subi, sentei do lado de fora da mureta de proteção e abri meu vinho branco.

Uns turistas puxaram papo. O alemão estava comigo e confesso que a companhia dele já estava me irritando. Eu queria ficar sozinha e ele, cheio de segundas intenções, não me deixava passar da recepção do hostel.

Praga me deu uma vista privilegiada da lua cheia e uma das lições mais importantes da viagem: dizer não.

Vendo o reflexo da lua nas águas do Rio Moldava e a luz dos postes desenhando as pontes e iluminando as cúpulas da cidade de Praga, senti que não precisava de mais nada para ser feliz.

– Galera, uma lua cheia linda numa noite agradável em Praga, com um DJ pra colocar a trilha sonora e um vinho barato no gargalo. É impossível desejar algo mais. É impossível melhorar!

Eu mal terminei meu comentário e o céu se iluminou em vermelho, verde, azul e dourado com um show de fogos de artifício completamente inesperado.

– Why? – Perguntavam os gringos ao redor.

– It is because of me! – respondi sem modéstia.

Deveria ser a comemoração de um casamento, mas eu sabia que eu estava ali para ver aquilo e ter certeza: sempre tem como melhorar. Não consigo explicar a gratidão que tomou conta de mim. Era inacreditável. O céu explodiu com corações e chuva de luzes durante mais de 10 minutos. Foi lindo.

Depois de recusar educadamente uma proposta de sexo sem compromisso do alemão, segui meu passeio pela cidade sozinha.

Eu sei, vocês querem saber a proposta, né?

Sem cerimônia nenhuma ele me perguntou se eu não sentia falta de fazer sexo durante a viagem e disse que, se eu quisesse transar sem compromisso, era pra eu mandar uma mensagem. No primeiro segundo eu me choquei com a ousadia, mas em seguida eu pensei: muito melhor do que ficar criando historinha de que tá apaixonado pra conseguir levar mulher pra cama. Simples, direto e sem assédio. Então eu disse apenas que não estava interessada.

Viena. Rica, limpa e cheia de charme

Viena no verão
Flores, comida roubada e emoção no festival de filmes de Viena

Mais uma carona me levou para Viena. Ouvi várias pessoas comentarem que era uma das cidades mais caras da Europa. Como eu tinha prazo para chegar em Budapeste e pouco dinheiro no bolso, reservei hostel por apenas duas noites. Tive dificuldade de conseguir hospedagem pelo Couchsurfing no leste europeu.

Cheguei no hostel ao anoitecer e apenas caminhei pelo bairro onde estava para sentir a atmosfera da vizinhança. Gastei o resto do tempo em uma chamada de vídeo com o irlandês. Nós passávamos o dia trocando fotos e mensagens de texto e nos falávamos por vídeo antes de dormir. Eu não estava apaixonada, mas estava curtindo aquela atenção que ele me dava.

Depois de uma barreira cultural que me tirou do eixo com o canadense, eu gostei de ver o cara apostando uma semana das férias dele numa viagem com uma mulher com quem ele saiu por apenas duas noites. A vida é uma só e isso é o tipo de coisas que eu faria fácilmente. E olha, tem nada de errado comigo por ser assim aventureira. E também tem nada de errado com você que prefere ir com mais calma quando o assunto envolve o coração. Essa lição foi o canadense que me deu sem saber e eu agradeço muito.

Na segunda noite eu voltei à Praça da prefeitura de Viena. Durante meus passeios à tarde eu vi um telão montado em frente à fachada do prédio gótico da prefeitura e tratei de descobrir que estava acontecendo um festival de filmes gratuito. Foi uma das experiências mais lindas que eu vivi.

Eu estava muito satisfeita com a lua cheia e os fogos em Praga, mas eu vinha me tratando com tanto amor, que o Universo só me dava mais e mais. A rápida passagem pelo leste europeu fui uma festa de aniversário com presentes lindos e especiais.

A arte me encanta de uma maneira inexplicável e isso é mais uma descoberta importante da viagem. Mesmo sem entender quase nada sobre nenhum tipo de arte, eu gastei horas observando meus sentimentos diante de quadros e esculturas pelos museus que passei ao redor do mundo.

O primeiro filme da noite era uma coletânea de performances que pareciam mostrar a relação melancólica do ser humano com a passagem do tempo. Eu anotei o nome dos dois filmes mostrados, mas perdi o bloco de notas pelo caminho.

O segundo vídeo da noite mostrava uma orquestra regida por um dos maestros mais jovens da europa interpretando um poema. Eu procurei no google, mas as informações sobre a mostra devem estar em alemão e minha busca em inglês não teve êxito.

Chorei com a beleza do filme e ao imaginar como a arte consegue usar música para interpretar palavras. Chorei agradecendo por ter mantido Viena no roteiro, mesmo com a grana curta. Chorei por estar vivendo mais uma noite memorável. Eu que achava que não conseguiria mais experimentar a felicidade, achei ela plantada no meu peito e descobri que a felicidade é um tempero. Eu escolho os momentos que me fazem bem, e salpico com essa purpurina dentro de mim.

Era só uma mostra de filmes, eu transformei num presente e agradeci. A lua, que continuava cheia, me acompanhou na volta para o hostel. Roubaram a salada que eu havia deixado na geladeira e eu quase chorei de novo por ter que gastar mais alguns euros em algo para jantar.

Como eu previa, o roubo de comida, que me incomodou tanto, virou história para contar e motivo para rir. Os euros gastos ali não me fazem nenhuma falta hoje.

Próximo destino: Budapeste.

Uma Resposta para “Praga, Viena e um batidão cronometrado pelo leste europeu”

  1. Menina linda, vc coloca em palavras muitos dos sentimentos que senti no meu mochilão ano passado…chorando de alegria e gratidão pelos momentos detalhadamente presenteados à mim…e no caso o seu alemão, foi pra mim um checo…me perguntou se eu não queria sexo casual, assim, como quem pergunta se quero ir à uma festa. Como você, num primeiro momento me assustei, mas depois, ri (e como) e achei super digno e sensato o convite. DIRETO e VERDADEIRO. Se ele tivesse feito meus olhos brilharem, porque não?!?!?! hahahahha….delícia te ler, guria. Venho te acompanhando mais do que antes pois essa mesma vontade de me jogar e ganhar o mundo vem se tornando mais real por aqui…quem sabe depois não te mando um email pedindo mais detalhes sobre algumas dúvidas que ainda tenho, por hora….tá tudo lindo. Certeza de que não há maior riqueza que esse conhecimento ímpar que você vem colecionando…e eu e tantas outras mil pessoas ficamos felizes simplesmente por te ver feliz! 😀

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