Eu escolhi me apaixonar, mas se apaixonar não é uma escolha

Hoje eu não disse adeus para o amor bonito que eu vivi no Canadá. Sim, eu me dei permissão para me apaixonar de novo e essa foi uma das escolhas mais belas que fiz durante a viagem.

Quando eu disse sim para o primeiro encontro naquela tarde de domingo eu assumi o risco de me apaixonar. Eu sou grata porque passei mais de três horas conversando num café da Avenida Eglinton e me senti completamente à vontade falando meu inglês errado com aquele desconhecido.

Eu escolhi me apaixonar quando respondi às mensagens dele com empolgação e disse sim para o segundo encontro numa noite gelada de sexta-feira. Eu estava fazendo essa escolha quando retribuí o beijo na escadaria do bar e quando me deixei ser abraçada embaixo do poste na Avenida Roehamptom.

Eu escolhi me apaixonar quando entreguei minha mão para ser conduzida naquele sábado ensolarado do terceiro encontro e quando aceitei esticar o dia ao lado de quem me fazia sentir tão bem.  Foi uma escolha entregar meu riso para a dança engraçada e deixar que ele tirasse o meu casaco.

Sim, quando nos abraçamos com força diante da imensidão azul do Lago Ontário, eu estava escolhendo me apaixonar. Eu poderia ter ido para casa naquela manhã de domingo, mas eu preferi ficar ao lado dele e sentir o vento gelado expulsando o inverno de dentro de mim.

Eu também estava escolhendo me apaixonar quando o chamava por apelidos engraçados só para ouvir de volta seus elogios em inglês. Eu estava escolhendo isso até mesmo quando procurava a tradução das músicas que ouvíamos juntos, porque agora eu posso ouvi-las com atenção só para me lembrar daqueles dias de sol nos meus olhos.

Inconsientemente eu estava escolhendo me apaixonar quando me permiti ser livre dentro dos abraços dele.

Depois de semanas vivendo esse conto de fadas, em algum momento, eu não sei dizer quando, eu entendi que não podia escolher me apaixonar. Eu simplesmente já estava apaixonada.

Isso mesmo, você entendeu certo quando eu te olhei profundamente no metrô e decidi ser honesta sobre os meus sentimentos a respeito da sua distância. Eu só não tive coragem de dizer com todas as letras e não conseguia entender os teus pedidos, porque você também não dizia tudo.

É engraçada a forma como eu escrevo esse texto, porque eu sinto como se estivesse traduzindo tudo isso para o meu idioma materno pela primeira vez. Só que não existe tradução para sentimentos. Because I chose to fall in love in English, even without not knowing how to speak it well and without completely understanding all the things he told me.

Eu acho que foi tão fácil me apaixonar justamente porque eu não entendia direito o rumo de tudo. No fundo eu devo ter me apaixonado pelos sentimentos que experimentei com ele. Porque na verdade eu não sei se o conheço o suficiente pra isso.

O fato é que eu achava que as barreiras do idioma ou a diferença cultural me impediam de saber exatamente o que estava acontecendo entre nós. Eu tentei interpretá-lo com base nos meus medos e sofri, porque isso não cabe a mim.

Tive paz quando aceitei que só posso dimensionar o que acontece dentro do meu mundo. O mundo do outro é só dele.

O mais importante é que eu escolhi também assumir a responsabilidade por me apaixonar. Porque ele nunca me pediu e nem me prometeu nada. E desapegar das expectativas que o ego insiste em criar tem sido a lição mais linda.

Tá bem, eu confesso que aquele jeito lindo de me olhar ajudou na minha escolha. Talvez ele possa assumir um pedacinho da culpa. Eu gosto de acreditar que ele me fez rir tanto porque gostava de ouvir a minha risada.

Continuo grata a mim mesma, pois sem essas escolhas eu não teria vivido tantos momentos divertidos e especiais e não teria aprendido como pode ser bonito e leve abrir o coração de novo.

Eu poderia voltar um milhão de vezes no tempo e tenho certeza que desejaria viver exatamente as mesmas coisas.

Nós não dissemos adeus e eu confesso que as lágrimas molharam meu peito quando entrei no trem. Eu não me importo e até gosto de ter coragem para admitir isso.

Eu aceitei a saudade, afinal eu sabia que haveria um preço a ser pago no fim do passeio.

Hoje eu não disse adeus para o meu amor canadense porque a tradução de saudade em inglês é “I miss you”, e eu simplesmente não quero perdê-lo. Quero apenas agradecer porque ele também não me disse adeus e escolheu continuar aqui dentro.

 

*Esse texto foi escrito no dia 24 de junho de 2018, mas eu nunca tive coragem de publicar. Estou publicando hoje, com pequenas edições e com mais medo do que nunca. O motivo? Eu não sei. Nós perdemos o contato há muito tempo, mas eu continuo grata por ter vivido cada sentimento dessa história.

Passei dois meses em Toronto, onde vivi um dos períodos mais importantes da minha viagem. Esse namorinho é só um pequeno pedaço que eu consigo entender.

De tudo que eu já publiquei aqui e no instagram, é como se a página de Toronto ainda estivesse em branco. Certamente porque me faltam consciência e coração para lidar com tudo o que aconteceu lá.

Eu sei que aquelas páginas não estão em branco, estão todas muito vivas e coloridas dentro de mim.

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