Berlim é a capital da liberdade e ressignificou minha dor

Berlim foi uma bomba de emoções contraditórias pra mim. Eu me apaixonei pela cidade.

Antes de chegar em Berlim, eu estava em Munique. Um resumo da minha estadia com o Massi, o melhor couchsurfing host da viagem está nesse post que fiz sobre hospedagens pelo Couchsurfing. O plus que eu poderia dar aqui é que o Massi me apresentou um amigo super gato, mas essa nem é uma história que mereça um post exclusivo.

De Munique peguei um ônibus para Berlim, onde me hospedei na casa do Peter, também pelo Couchsurfing, nas duas primeiras noites. Decidi que ficaria cinco dias, mas acabei ficando oito.

No restante do tempo fui acolhida numa república de estudantes onde o filho de uma amiga brasileira mora. Foi divertido ver os universitários sendo universitários. Centenas de garrafas de cerveja espalhadas pelos corredores. Sutiãs e camisetas pendurados por todos os lados e meias sem par jogadas pelo chão.

Na cozinha, louça sempre suja na pia e cinzeiros sempre cheios sobre a mesa. Sou muitíssimo grata por ter vivido essa experiência numa típica república de estudantes. Até fumei um baseado com a galera. Já que é pra experimentar a vida, que seja bufê completo, né?

Com receio da intensidade da erva, provei só uma vez. Foi mais do que suficiente. Com a caipirinha que tomei, fui pra cama logo em seguida e me diverti no dia seguinte lendo as mensagens que mandei para o irlandês. (Lembram da proposta de casamento em Dublin, né? Estava rolando um romance virtual intenso, com mensagens o dia todo e vídeo chamada todas as noites).

Mas vocês querem saber como eu ressignifiquei minha história, então pega o lencinho e senta que é textão.

Eu visitei vários museus em Berlim. O Museu do Holocáusto, particularmente, me impactou mais. Eu chorei de soluçar ao ler as cartas e diários de judeus que morreram nos campos de concentração. Fiquei chocada vendo as fotos das montanhas de corpos magros depositados em valas comuns.

Eu senti dor imaginando as mulheres caminhando em direção às câmaras de gás com seus filhos nos braços.

Um homem escreveu no seu diário: “Estamos a caminho de um campo de concentração e eles dizem que vamos trabalhar lá. Mas a maioria de nós sabe o verdadeiro destino. Ainda assim, tentamos amparar uns aos outros dizendo que é trabalho. Estamos tão exaustos. Tomara que seja mesmo trabalho”.

Eu consegui imaginar o misto de resignação diante morte iminente com esperança e incredulidade.

Cerca de seis milhões de pessoas foram mortas pelo Nazismo. Exterminadas simplesmente por serem judeus, negros, ciganos, homossexuais ou deficientes. Por serem algo que não podiam mudar. Simplesmente porque alguém achou que eles não eram puros, que eram inferiores.

Sim, a Alemanha deveria se envergonhar e esconder essa história, mas eles não fizeram isso. O Muro de Berlim, que separou a Alemanha ocidental da Alemanha oriental, foi transformado na maior galeria de arte a céu aberto do mundo. E hoje, o que foi sinal de separação, está coberto por grafites coloridos que criticam todo o tipo de preconceito.

Berlim tem dezenas de museus que contam a história do holocausto. Eles não escondem nada de ninguém. Está tudo lá, como uma fotografia colada na porta da geladeira e um bilhete: jamais siga esse caminho de novo.

Berlim hoje é conhecida como “capital da liberdade”. Ela olha para o passado e diz para o mundo: nós cometemos esses erros, mas nós aprendemos com eles e evoluímos.

Então, sentada sobre a sombra de uma árvore nos jardins do Charlottenburg, eu chorei. Eu senti orgulho de mim pela primeira vez. Eu compreendi que não precisava ter vergonha da minha história, porque eu transformei toda a minha dor em um trampolim para ser melhor. Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou essa força que me levantou depois do que aconteceu.

E então eu consegui me sentir verdadeiramente grata por cada lágrima de dor que eu derramei. Foram aquelas lágrimas que me levaram a caminhar em direção a minha versão mais bonita. Essa versão independente, destemida e autêntica que muitos de vocês estão acompanhando no instagram.

Eu descobri que não preciso mais olhar para o meu passado com pesar. Ele é uma enciclopédia que eu consulto sempre para saber quais comportamentos valem ou não valem a pena repetir.

Eu vivi muitas outras coisas lindas em Berlim, mas essas reflexões são as que mais me tocaram. O resto eu vou contar no livro que já está em modo de preparo.

O recado que Berlim me deu eu repasso para vocês: a escolha é sua. Apenas você pode decidir quem vai se tornar depois de uma porrada. Pode ficar no seu lugar de vítima ou vestir sua capa de responsabilidade e ser o super herói da sua própria história.

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